Uma vez ouvi um engenheiro dizer que a ponte é uma das
construções mais difíceis de serem concebidas e não dei ouvidos para isso.
Desde pequena sempre admirei pontes, mas nunca soube construir nenhuma , nem
desenhando, nem aquela das brincadeiras infantis e das aulas de Ballet e ficava
frustrada.
As minhas pontes eram sempre tortas e incompletas, totalmente diferentes daquelas construções duras e imponentes que eu admirava. As minhas pontes eram reflexo do que eu era, torta e incompleta e do que eu não era, dura e imponente.
As minhas pontes eram sempre tortas e incompletas, totalmente diferentes daquelas construções duras e imponentes que eu admirava. As minhas pontes eram reflexo do que eu era, torta e incompleta e do que eu não era, dura e imponente.
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| Lembro de pegar a barca para Paquetá e ficar maravilhada com aquela construção intangível. |
Eu gostaria de ao menos tocar a ponte, mas não era permitido. Talvez se eu pegasse algum barquinho, eu poderia chegar lá, mas os barquinhos eram frágeis e eu mais frágil ainda. E se viesse uma onda gigante e me fizesse afogar? Eu queria mergulhar para tocar o fundo da ponte que eu não conseguia ver e que quase ninguém poderia tocar e eu mergulhei profundamente.
Sempre sento no lado que bate sol no ônibus, não adianta, sempre o sol tá lá na minha cara dizendo que eu sou uma otária por não percebê-lo a tempo de mudar o lugar e daí o ônibus já tá lotado. Peguei a ponte pela milésima vez, mas dessa vez foi diferente porque há muito tempo não fazia a travessia e pensar que há 6 anos atrás tal travessia era diária. Contemplei a paisagem. 13 km de extensão e milhões de km de pensamentos. Vi Paquetá à direita, o Fundão, vi também a Ilha Fiscal, observei o Gragoatá completamente diferente do que era e eu mesma não sendo mais a mesma e sorri sozinha e ao mesmo tempo minha expressão ficou triste, avalanche de memórias.
O motorista estava em alta velocidade e estava beirando a
ponte, bastava uma manobra errada para que caíssemos todos na baía, intensifiquei
a sensação da possibilidade ouvindo “Aces High” deveria ouvir “Highway to hell”,
mas a melodia do Maiden tocava mais a minha alma. Sorri perigosamente.
De volta para Niterói, a ponte estava fechada por causa do mau
tempo e pela primeira vez não desejei a queda pois compreendi antes que eu tinha
medo mesmo de me salvar ao invés de morrer, de voltar a respirar o oxigênio que
dá vida e sentido para caminhar, de pegar o fôlego, de encarar as coisas intransponíveis, medo de
aceitar que as pontes podem ser queimadas por mim e pelo o outro e que a ponte
é tão grande e instável quanto eu. Mergulhar era a solução e o reforço do medo
e eu recusei o convite. ![]() |
| Não tive medo da pergunta que ás vezes me assolava desde a infância: “ Se eu cair será que eu morro?”. |
E neste ano, enfim, descobri coragem e força e não temer as pontes e então pude sentir a vida mais do
que a morte pulsando intensamente dentro de mim.
"A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento...."
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento...."



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