domingo, 10 de março de 2013


Existe um poema tomando corpo
Sufocado pelo peso do meu corpo
Quente, inteiro, saindo do forno
Esperando para ser escrito morno

Existe um poema quase morto
Imprensado pelo peso do meu corpo
O poema nada diz e muito quer dizer

O poema representa a luta entre o vivo e o morto
O morto todo vivo em cada gesto do meu corpo
Mutilando meus desejos nada mornos

O corpo: Reflexo da alma ( vencida e invalidada).
E se o corpo sente, é porque a alma está desorganizada?
O corpo deseja dar corpo ao poema (essa narrativa diária)
Mas o corpo também deseja o fim do corpo
Entrave da livre expressão da alma

A alma não existe, mas é uma figura presente e atormentada
que mente que não sente e quer ser incorporada
À tudo que ela não pertence.

O corpo, prisão da alma, quer se ver morto
e não apresenta saída.
A alma encurralada fere o corpo
e chora sem ser ouvida.
A alma acaba então, em lágrimas, sendo revertida.

Como incorporar a alma ao corpo
Se um quer se ver morto e a outra quer se ver viva?
Como ressucitar o corpo, diariamente
Morto de antigas(?) batalhas perdidas?
A alma tateia fugas de um corpo sem serventia.
O corpo padece e busca despedidas.

O corpo e a alma, em permanente luta
disputam de quem vai ser a primazia.
A alma, essa coisa intangível, ri e se orgulha de sua astúcia e supremacia.
O corpo não pensa, apenas quer ser.
O corpo apenas camufla os bombardeios da alma, por isso morto.
A alma mal sabe de qual corpo é ou deseja ser e acaba matando todos.

segunda-feira, 4 de março de 2013

De todos os cantos#




Meu canto é meu pranto
Das dores passadas
Lembranças viventes
Futuras decepções

Nossa Senhora, presente
faça das dores futuras
que sejam ao menos agudas
ou decepções ausentes

Meu santo é meu manto
Acelera o andamento desse noturno
Atenda por favor o meu pedido
Transforma a poesia em canto mudo
ou me faça cantar mais sustenido

Acredito na cura
De que cada nota, expulsa
ou repulsa
Sentimento ruim que brota

Sei que nessa rota de eterna saudade inexistente
Que meu coração insistente na procura
Confusão que traz em mim, na minha mente
Melodia repetitiva que perdura
Eu aqui, você aí...enfim..
Qual de nós está ausente?



#Arrumando meu quarto ontem, encontrei vários papéis e alguns poemas, como esse aqui de 200...8(?)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Sobre pontes e pensamentos.


Uma vez ouvi um engenheiro dizer que a ponte é uma das construções mais difíceis de serem concebidas e não dei ouvidos para isso. Desde pequena sempre admirei pontes, mas nunca soube construir nenhuma , nem desenhando, nem aquela das brincadeiras infantis e das aulas de Ballet e ficava frustrada. 




As minhas pontes eram sempre tortas e incompletas,  totalmente diferentes daquelas construções duras e imponentes que eu admirava. As minhas pontes eram reflexo do que eu era, torta e incompleta e do que eu não era, dura e imponente.



Lembro de pegar a barca para Paquetá e ficar maravilhada com aquela construção intangível.


 Eu gostaria de ao menos tocar a ponte, mas não era permitido. Talvez se eu pegasse algum barquinho, eu poderia chegar lá, mas os barquinhos eram frágeis e eu mais frágil ainda. E se viesse uma onda gigante e me fizesse afogar?  Eu queria mergulhar para tocar o fundo da ponte que eu não conseguia ver  e que quase ninguém poderia tocar e eu mergulhei profundamente. 


Sempre sento no lado que bate sol no ônibus, não adianta, sempre o sol tá lá na minha cara dizendo que eu sou uma otária por não percebê-lo a tempo de mudar o lugar e daí o ônibus já tá lotado. Peguei a ponte pela milésima vez, mas dessa vez  foi diferente porque há muito tempo não fazia a travessia e pensar que há 6 anos atrás tal travessia era diária. Contemplei a paisagem. 13 km de extensão e milhões de km de pensamentos. Vi  Paquetá à direita, o Fundão, vi também a Ilha Fiscal, observei o Gragoatá completamente diferente do que era  e eu mesma não sendo mais a mesma e sorri sozinha e ao mesmo tempo minha expressão ficou triste, avalanche de memórias.

O motorista estava em alta velocidade e estava beirando a ponte, bastava uma manobra errada para que caíssemos todos na baía, intensifiquei a sensação da possibilidade ouvindo “Aces High” deveria ouvir “Highway to hell”, mas a melodia do Maiden tocava mais a minha alma. Sorri perigosamente.  

Não tive medo da pergunta que ás vezes me assolava desde a infância: “ Se eu cair será que eu morro?”. 
De volta para Niterói, a ponte estava fechada por causa do mau tempo e pela primeira vez não desejei a queda pois compreendi antes que eu tinha medo mesmo de me salvar ao invés de morrer, de voltar a respirar o oxigênio que dá vida e sentido para caminhar, de pegar o fôlego,  de encarar as coisas intransponíveis, medo de aceitar que as pontes podem ser queimadas por mim e pelo o outro e que a ponte é tão grande e instável quanto eu. Mergulhar era a solução e o reforço do medo e eu recusei o convite.

E neste ano, enfim, descobri coragem e força e não temer as pontes e então pude sentir a vida mais do que a morte pulsando intensamente dentro de mim. 

"A ponte não é de concreto, não é de ferro
Não é de cimento
A ponte é até onde vai o meu pensamento...."

domingo, 11 de novembro de 2012

Cá estou eu novamente, depois de um longo período cinza-silêncio, depois de muito conversar com um velho amigo, voltar a atividade de escrever. Não sei o que escrever na próxima linha. O primeiro ponto é atravessar com palavras quaisquer o imenso branco do papel que quer ser escrito ou atravessar a grande massa cinzenta que não quer escrever?

O que consiste este blog? Falar de qualquer coisa que toque a alma. Música, pintura, literatura, panorama da paisagem interna ou externa, toda a sua luz e sombra, brilho e opacidade. Nada de gramática e técnica por aqui. Um exercício de liberdade através da escrita.

Através da cor fazer poesia e criar outras cores que sirvam para outros poetas.